06.11.2017

Rodrigo Pessoa

O nome mais conhecido do hipismo brasileiro foi citado como a grande referência do paralímpico Sérgio Oliva, durante a série Simbiose. Conheça o cavaleiro

Hoje, ele carrega três medalhas olímpicas e inúmeros outros títulos. Mas 1981 era apenas o ano em que Rodrigo Pessoa estreava em competições, levando o quarto lugar com seu pônei, Mickey. Com nove anos, os cavalos ainda eram apenas mais uma brincadeira para Rodrigo que, diferente do pai, Nelson Pessoa, não foi para o hipismo pelo amor pelos cavalos, mas sim pelo gosto por esportes. “Tudo aconteceu tão rápido que não tive tempo de me questionar se era realmente isso que eu queria. Tenho a paixão em mim, mas ela não é tão extrema como a que anima meu pai”, conta*.

Seu pai, Nelson Pessoa, foi o primeiro brasileiro a registrar seu nome na história do hipismo e é até hoje uma grande referência mundial no mais alto nível do esporte. Neco, como é conhecido, rompeu a barreira entre o amadorismo e o profissionalismo dentro do hipismo e, já em 1961, se mudou para Europa para se dedicar exclusivamente aos cavalos e começar a traçar sua carreira que, quando nasceu Rodrigo, já estava muito bem consolidada.

Com a pressão e grandes expectativas para alcançar o alto nível do pai, com quem sempre teve mais uma relação profissional do que de intimidade, o cavaleiro sempre se mostrou mais fechado e, desde a adolescência, decidiu que provaria que era capaz de estar entre os grandes nomes do Salto. Desenvolveu uma forma de “controle permanente”, afinal, com tanta ambição, era preciso ter grande força de caráter. Portanto, em seu livro "Você Será Campeão, Meu Filho - A saga Pessoa", Sabrine Delaveau os descreve da seguinte forma: “Neco e Rodrigo são opostos um do outro, como o dia e a noite. O pai é sentimental e exagerado, impetuoso e colérico; o filho é solitário e enigmático, às vezes seco e contido”.


Neco, que ganhou fama como ‘feiticeiro’ por acreditar nos animais mais difíceis, ficou famoso por sua forma única de compreender os cavalos e por acreditar nos animais dados como casos perdidos, gastar tempo e energia até lapidá-los para serem grandes campeões. Enquanto isso, Rodrigo é mais prático e direto, o ‘piloto’ da equipe

Os cavalos na vida de Rodrigo seriam, então, mais uma forma de praticar o esporte ao qual ele se dedicou para chegar ao alto nível, do que uma grande paixão. Assim como poderiam ter sido os carros de corrida, uma vez que o cavaleiro tem grande paixão pelo automobilismo. Um cavalo marcante? Todos que conhecem minimamente a história da família pessoa chutariam o lendário Baloubet du Rouet. Mas o cavalo que chegaria ao número um do mundo, com título de campeão mundial e tricampeão da copa do mundo, além é claro de dar a única medalha de ouro já conquistada pelo Brasil no hipismo à Rodrigo Pessoa, também lhe deu momentos imperdoáveis de grande decepção.

Entre elas, talvez uma das maiores derrotas do cavaleiro e, sem dúvida, um divisor de águas em sua vida. Foi com Baloubet que Rodrigo entrou na pista de Sydney 2000 como favorito absoluto para a medalha de ouro, mas com três refugos inexplicáveis, tiraria o gosto da vitória do atleta. Ainda assim, o conjunto ajudou o Brasil a levar o bronze por equipes naquele ano. Em casa, Rodrigo montou uma linha de três obstáculos enormes para corrigir o animal, mas ele não refugou ou sequer tocou nas varas. Baloubet foi o cavalo mais talentoso que o cavaleiro já trabalhou, mas a sua rebeldia o fez lembrar, por mais de uma vez, que o parceiro de um atleta de hipismo é um ser vivo que, como qualquer campeão, também tem seus defeitos. Baloubet morreu em agosto deste ano, com 28 anos. Em homenagem ao companheiro de mais de uma década, Rodrigo escreveu: “Talento, beleza, energia, força, habilidade e elegância fizeram de você o melhor”.

Em reportagem da ESPN, é possível relembrar o momento dos refugos de Baloubet, em Sydney 2000. Entre os cavalos mais lembrados por Rodrigo Pessoa estão Special Envoy, que marcou o início da carreira do cavaleiro, e Lianos, com quem foi
campeão do mundo em 1998

 

O brasileiro encerrou sua participação em Sydney afirmando que estaria de volta para buscar o ouro na próxima edição dos Jogos. E foi o que aconteceu. Nas Olimpíadas de Athenas 2004, Baloubet e Rodrigo conquistaram o segundo lugar, porém, com a eliminação por doping do irlandês Cian O’Connor, que foi confirmada somente no ano seguinte aos Jogos, o cavaleiro brasileiro levou o primeiro ouro do Brasil na categoria individual do hipismo, sendo premiado no Rio de Janeiro em uma cerimônia emocionante.

Talvez o grande exemplo que se pode tirar da vida esportiva de Rodrigo Pessoa seja a de superar as derrotas, ter força de vontade e foco para alcançar seus objetivos. Aquele jovem cavaleiro de dezesseis anos que decidiu que se libertaria da sua herança e marcaria seu próprio nome na história do esporte, aos 33 anos, em 2005, sem dúvida já havia realizado seu desejo, sendo o primeiro cavaleiro da história a vencer os três maiores títulos mundiais do esporte: Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Campeonato Mundial.

Atualmente, o brasileiro é técnico da equipe principal da Irlanda, que busca se classificar para as Olimpíadas de Tokyo 2020, após terem ficado três edições fora da disputa por equipes, e ainda não sabe se irá buscar disputar pelo Brasil nestes jogos.

Ficou curioso para saber mais sobre a trajetória da família que marcou o hipismo brasileiro e mundial? Então não perca a leitura envolvente e desmistificante da autora Sabrine Delaveau em "Você Será Cavaleiro, meu Filho - A saga Pessoa".  

Referências

* "Você será cavaleiro, meu filho", Sabrine Delaveau
Rodrigo Pessoa - Principais Prêmios
Simbiose - Cavaleiro Paralímpico Sérgio Oliva
Globo Esporte - Morte de Baloubet
Globo Esporte - Técnico Irlanda
Medalha Brasil