25.04.2018

Mozart nos estábulos?

Em tradução livre, confira a matéria da revista francesa Cheval Magazine sobre como a música pode alterar o comportamento dos cavalos

Segundo o ditado, a música acalma os ânimos. O que é certo para os seres humanos também se aplica para alguns animais. O que sabemos sobre esse fenômeno fascinante? Devemos tocar música para nossos cavalos?

O cavalo não é um ser de natureza musical (ele não canta como alguns pássaros) e também não possui elos culturais com a música. Portanto, não é evidente que ele seja receptivo à música como nós ou outras espécies de animais. Mas algumas pesquisas verificaram que os cavalos possuem sim uma relação musical. A música tocada no cotidiano pode influenciar no comportamento e estado emocional dos cavalos. Mas esse impacto nem sempre é o que se espera, porque vai depender da música tocada.

 
 

Uma equipe de pesquisadores americanos da Universidade de Cornell e uma equipe inglesa da Universidade de Hartpury compararam os efeitos de quatro gêneros musicais nas atividades do cavalo dentro da baia: música country, clássica, rock e jazz. A música era tocada diariamente durante diversas horas nos estábulos. Nos dois estudos a música clássica e a country tiveram efeitos relaxantes nos cavalos, que descansavam e se alimentavam mais.

Em contrapartida, os pesquisadores observaram que ao tocar rock e jazz acontecia o oposto, os efeitos eram de enervação e até mesmo de estresse nos cavalos. Estes resultados ainda precisam ser aprofundados, mas já foi possível obter essas conclusões práticas.  

Calmante compartilhado: A música também pode envolver os cavalos indiretamente, influenciando o estado emocional daqueles que os cuidam. Quando os tratadores estão relaxados e de bom humor graças à música, seus gestos mudam. Eles se tornam mais gentis, mais cuidadosos e mais cautelosos com os animais, o que aprimora a qualidade de suas interações.

 

Como vimos, a transmissão de música no ambiente pode trazer resultados interessantes e positivos. Mas será que ela pode ser utilizada em contextos mais específicos? Pesquisadores trabalharam na questão e buscaram descobrir se a música poderia ajudar os cavalos a tolerar melhor alguns episódios de estresse mais pontuais e intensos.

A MÚSICA COMO ANTI-ESTRESSE

Uma equipe australiana da Universidade de Brisbane mostrou que expor potros à músicas clássicas fazia com que esses animais permanecessem mais calmos em situações estressantes. O estresse consistia na presença de um garanhão desconhecido em uma baia vizinha. De fato, quando a música era tocada no estábulo durante esse episódio de estresse, os potros apresentavam um ritmo cardíaco mais lento, uma recuperação mais rápida após o fim do estresse e ficavam mais calmos em suas baias – passavam mais tempo comendo e descansando – do que na ausência de música.

 
 

Resultados similares foram observados na França, em uma colaboração entre a Universidade de Caen e o Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) de Estrasburgo. No caso de situações de estresse mais intensas, sendo o isolamento social e o transporte em caminhões, a música clássica também permitiu a diminuição dos indicadores de estresse e desconforto. 

É interessante notar que esse efeito calmante não foi observado quando os cavalos usavam simples protetores de ouvido, o que sugere que a simples diminuição da percepção do ambiente não é a origem desse efeito.

Algumas tecnologias inovadoras, como a criada pela Horsecom, oferecem fones de ouvido para o cavalo e para o cavaleiro que tocam a música de sua escolha afim de aprimorar a concentração do conjunto durante as sessões de trabalho

 

Mas todos estes estudos criam novos questionamentos que ainda devem ser respondidos: como a música age sobre o estado emocional do cavalo? A música pode permitir uma melhor concentração ou também pode ser uma distração, como acontece com o ser humano? Quais características uma música deve ter para causar esse efeito calmante?

O que os trabalhos científicos conduzidos até o momento sugerem é que a música – particularmente a clássica – possui o poder de agir sobre o estado emocional dos cavalos. Mas os pesquisadores ainda buscam determinar quais mecanismos sustentam esse fenômeno. Dentre as hipóteses propostas, acredita-se que o efeito calmante da música venha do caráter repetitivo e previsível de alguns trechos musicais, pela capacidade da música de reorientar a atenção de um indivíduo ou ainda pelo fato de que alguns ritmos musicais se aproximam de certos ritmos fisiológicos, como os batimentos cardíacos.

 

 

Fonte: Cheval Magazine