20.11.2017

Dia da Consciência Negra

Conheça a história de cavaleiros negros ao redor do mundo que venceram barreiras para se destacar no hipismo

É dia de conscientização e reflexão, de valorizar a importância da cultura e do povo africano na formação histórica e cultural do nosso país. No esporte, como em muitos outros aspectos, os negros tiveram que passar por muitas barreiras. Confira alguns exemplos de apaixonados por cavalos que lutaram para conquistar seu espaço:

Rogério Clementino 
Brasil
Adestramento
Rogério Clementino (foto de capa) foi o primeiro cavaleiro negro brasileiro a conquistar classificação para competir em Olimpíadas. Na véspera dos jogos, porém, seu cavalo foi desclassificado no exame veterinário, o que não só impossibilitou Rogério de realizar seu sonho olímpico, como também tirou o Brasil da disputa por equipes no Adestramento em Pequim 2008. 

Mas o bicampeão brasileiro (2009 e 2010) também traz no currículo o bronze por equipes no Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007, e o 5º lugar, também por equipes, nos Pan-Americanos de Guadalajara 2011, no México. Sua trajetória começou como peão de rodeio até ir trabalhar como tratador e professor de equitação no haras da família de João Victor Oliva, cavaleiro olímpico que foi iniciado no esporte por Rogério Clementino. 

 

Isaac Burns Murphy
Estados Unidos
Turfe
Primeiro jóquei a ganhar três “Kentucky Derbies”, uma das corridas mais tradicionais dos Estados Unidos, sendo a primeira etapa da conhecida Tríplice Coroa. Por esse e outros feitos, Murphy foi o primeiro cavaleiro a entrar no hall da fama do esporte norte-americano, o National Racing Hall of Fame. De acordo com os cálculos do próprio jóquei, ele teria ganhado 628 das 1.412 corridas que participou, um índice de 44% de vitórias que até hoje não foi atingido novamente. Em 1955 a National Turf Writers Association criou o prêmio Isaac Murphy, que é entregue todos os anos ao jóquei que teve o maior número de vitórias em corridas norte-americanas na temporada. 

Vale destacar que, nos Estados Unidos, quando a corrida de Kentucky começou, em 1875, 13 dos 15 jóqueis eram negros com descendência africana. Estes atletas ganharam 15 dos primeiros 28 Derbies. Isso porque muitos se tornaram cavaleiros habilidosos após trabalharem como escravos em estábulos, principalmente no sul do país.  

Apesar destes números surpreendentes do início do esporte nos EUA, essa realidade foi mudando ao longo dos anos e, atualmente, o número de jóqueis negros gira em torno de 30, entre os 750 membros da associação nacional de jóqueis. O último negro a ganhar um Kentucky Derby foi Jimmy Winkfield, em 1902. Em 1921 foi o último ano em que um negro participou da corrida antes de 2000, quando Marlon St. Julien participou do famoso páreo.

 

Uneku Atawodi 
Nigéria
Polo
Conhecida como a única mulher negra a jogar polo profissionalmente, Uneku Atawodi teve que ir atrás dos seus sonhos quando se apaixonou pelos cavalos e disse que gostaria de jogar profissionalmente, mas seus pais pararam de dar apoio financeiro por não acreditarem que seria uma profissão promissora. 

Aos 23 anos, a amazona provou que podia fazer o contrário e já havia jogado polo por mais de 14 países, além de trabalhar como empresária e funcionária pública. Hoje, aos 29 anos, a nigeriana é fundadora e CEO de uma empresa de investimentos para startups de todos os setores.

 

Enos Mafokate
África do Sul
Salto
Há cinco décadas atrás, Enos Mafokate era o único negro das competições que participava, entre competidores, juízes e arquibancadas lotadas. O cavaleiro trabalhou em estábulos durante o apartheid, período de segregação racial legalmente aceita na África do Sul, de 1948 a 1994, que dava privilégios aos brancos, minoria no país. Depois de ganhar uma competição entre tratadores negros, recebeu permissão para montar com brancos. Entre outros títulos, em 1976, ficou em segundo lugar no Derby de Rothmanns e, em 1977 e 1978, ganhou importantes competições nacionais em Cape Town.

Ainda hoje, os cavaleiros negros são minoria no país e, segundo Mafokate, isso se dá pela falta de cultura dos esportes equestres pela população negra, que costuma enxergar os cavalos como animais de trabalho, e também pelos custos do esporte.

Atualmente, Mafokate mantem uma escola de equitação com o objetivo de tornar o esporte mais acessível. Com um conceito de escola diferente, a ideia é não só ensinar a montar, mas também levar ensinamentos sobre o bem-estar animal, disciplina e comunidade.

 

Donna Cheek
Estados Unidos
Salto
Representante dos EUA no Campeonato Mundial de 1982, na Cidade do México, Donna Cheek foi o primeiro membro negro a integrar o U.S. Equestrian Team. Na competição, a amazona levou o quarto lugar. Atualmente, trabalha em um centro de treinamento em Paso Robles, na Califórnia, após mais de 45 anos montando em competições de Hunter e Salto.

 

Shepherd Zira
África do Sul
Adestramento
Com tradição e uma linhagem de cavalos diretamente ligada à famosa Escola de Equitação de Viena, a The South African Lipizzaners é uma escola de elite de cavalos de apresentação de Adestramento. O primeiro cavaleiro negro a integrar o time e se apresentar levando o uniforme da tradicional instituição foi Shepherd Zira. O cavaleiro ingressou na instituição por um programa de bolsas criado no ano passado.

 

 

Selika Lazevski
França
Adestramento
O retrato de Selika Lazevski, por Félix Nadar, data de 1891 e foi publicada no livro “La France Noire”, um livro que aborda três séculos da cultura negra na França. Segundo a legenda do livro, Selika seria uma amazona da escola francesa de elite de Adestramento, no final dos anos 1800. A fotografia é cheia de mistérios e alguns acreditam que, apesar da amazona realmente ser referência na época, Nadar poderia ter fotografado uma modelo desconhecida.

Este ano, um curta-metragem inspirado na história da amazona, “The Adventures of Selika” (“As Aventuras de Selika”) estreou no festival internacional Film Black Montréal e foi finalista na categoria de ‘melhor curta’ do festival de cinema EQUUS. A sinopse traz a história de uma jovem princesa africana que, por conta da guerra, é adotada por uma nobre família francesa em meados do século XIX. 

 

Se você conhece outros exemplos de cavaleiros negros e apaixonados por cavalos que se destacam no meio equestre, conta pra gente pelo apoio@chevaux.com.br 

 

 

Referências:
Forbes - A brief history of black jockeys in the United States 
R7 - Dia da Consciência Negra
BCC - Primeiro cavaleiro negro do Brasil em Olimpíada chora por não poder competir
CS Monitor - In S. Africa, black equestrian works to clear apartheid's lingering sports hurdles
BF Equestrian - Selika Lazevski
Facebook - The Adventures Of Selika
CNN - The Forgotten godfathers of black American sport 
The Guardian - The black, female polo player changing percecptions in 'sport of kings' 
San Luis Obispo - Former equestrian star blazer her own trail 
Aljazeera - The black jockeys shaking up South Africa's horse riding scene