28.08.2016

5 perguntas para Nelson Pessoa

O ícone do hipismo nos contou um pouco do que ele pensa sobre a modalidade e o que achou das Olimpíadas.

Nelson Pessoa desembarcou em Brasília nesta semana. A viagem foi uma parada antes de seguir para Campinas, onde vai ministrar uma clínica organizada pela Chevaux com o cavaleiro olímpico e seu aprendiz, Stephan Barcha. Na sexta-feira, Neco visitou as instalações do nosso parceiro Brasília Country Club e conheceu um pouco mais sobre o trabalho da Chevaux Endurance Team e sobre o Enduro. Foi um dia muito agradável em meio aos cavalos e a tantos ensinamentos deste grande ícone do hipismo mundial. Qualquer conversa com Neco é uma verdadeira aula, por isso aproveitamos para fazer algumas perguntas para dividir com vocês um pouco de tudo o que ele tem a ensinar.

 Dudu, Neco, Francisco e Ronaldo no BCC

Dudu, Francisco, Neco e Ronaldo no BCC

 

1. A partir de toda a sua experiência como cavaleiro e como treinador, qual você diria que é a dica de ouro para os cavaleiros?

No hipismo, 5 pontos determinam o sucesso: talento, dedicação, atitude, recursos e direção (management). O talento pode ser para saltar 1m10 e tudo bem. Quando digo recursos, falo dos meios materiais, para comprar cavalo, equipamento, etc. A direção é o mais difícil no início, ter alguém que guie o cavaleiro. Acho que em qualquer esporte esses cinco fatores são determinantes.

 

2. Mesmo morando tanto tempo fora, você ainda tem uma grande relação com o hipismo brasileiro, acompanhando cavaleiros brasileiros. Como você vê o hipismo no Brasil hoje? Como estamos em relação a outros países?

Raramente um cavaleiro que vive aqui, que pratica aqui chega em um nível alto, internacional. Tem cavaleiros que ganham tudo no Brasil e quando vão para grandes competições não se saem tão bem. Os que mais se destacam estão radicados na Europa ou nos Estados Unidos. Em qualquer disciplina você necessita estar em competição com pessoas melhores que você para evoluir. Aqui, a gente vê que os brasileiros têm talento para montar, o que falta é direção. Mas talento e vontade, temos de sobra. 

 

3. Como você avalia a participação do Brasil nas Olimpíadas? Você acompanhou a equipe de hipismo?

Eu acho que a gente tinha a obrigação de ganhar uma medalha aqui no Brasil. Nós tínhamos o melhor grupo de cavalos das últimas Olimpíadas. Em 96, nós conquistamos medalha de prata a 5 mil quilômetros daqui. Em 2000, do outro lado do mundo, nós conquistamos medalha na Austrália, com um grupo de cavalos bem inferior. Esse ano, nós estávamos no Brasil, com uma equipe de cavaleiros e cavalos excelentes, os melhores. E nós chegamos em quinto lugar talvez por uma questão de organização da equipe, mudança de treinador meses antes da competição. Pra mim faltou um capitão na equipe, a atmosfera na equipe não era boa. Quase todos esses cavaleiros foram meus alunos: o Stephan trabalha comigo, o Doda montou comigo por 20 anos, o Pedro montou comigo por 10 anos. Então a seleção é muito difícil. É um desgaste terrível na hora das seletivas, é um “pega-pra-capar”.

 

Nelson Pessoa ficou bastante curioso sobre os equipamentos, os cavalos, as instalações e a alimentação utilizados no Enduro Equestre.

 

4. Na Europa você é conhecido como “le sorcier”, o feiticeiro. De onde você acha que surgiu esse apelido?

É porque eu nunca tive sponsor que colocava muito dinheiro em cavalos, eu tive muito cavalo que não dava resultado para as pessoas. Então eu pegava esses cavalos que tinham problemas de saúde ou técnicos e eu conseguia arrumar. E as pessoas falavam “esse cara é sorcier, não é possível. Esse cavalo era uma porcaria e agora é um craque”. Vários cavalos que eu montei tiveram essa transformação. E o segredo é gostar dos animais, ser dedicado, ter paciência com eles. Observar, saber cuidar, alimentar. Eu sempre tento dar aos meus cavalos uma boa condição física.

 

5. O que o pessoal pode esperar da Clínica da próxima semana?

Na clínica a gente faz uma revisão na pessoa. Volta para a estaca zero e parte do encilhamento dos cavalos. Cada cavalo tem que ter o seu próprio equipamento, não é só no alto nível que precisa estar tudo correto. Pelo contrário, quanto mais iniciante, mais importante deixar tudo certo. Depois vamos para a base de equitação, calcanhar pra baixo, postura do cavaleiro em cima do cavalo. Em seguida, vamos para o controle do cavalo, mudança de direção, mudança de pé, recuar, parar o cavalo. A base. Muitas pessoas têm dificuldade nisso, em fazer o cavalo parar, andar para trás. Tem tudo isso antes do primeiro obstáculo. Só depois que a base estiver boa é que a gente pode evoluir, fazer os exercícios com os obstáculos pra melhorar o cavalo, melhorar o cavaleiro. No concurso do fim da semana o objetivo é fazer um percurso limpo, ainda que seja baixo, tem que parecer ginástica artística. O cavaleiro que monta mais corretamente ganha daquele que não monta. É preciso aprimorar sempre.

 

A Clínica com Nelson Pessoa e Stephan Barcha acontece entre os dias 20/08 e 2/09 e ainda dá tempo de se inscrever. Saiba mais.