24.08.2017

5 perguntas para Lica Leão

Paixão e trabalho se misturam na trajetória da amazona que tem, até hoje, o melhor resultado do Brasil no Mundial de Enduro

Elas foram grandes nomes do Enduro nos anos 90 e até hoje mantém uma relação de muita admiração pelo trabalho uma da outra. No episódio da série Simbiose com Cida Gazzola, a endurista indicou como grande referência no esporte a amazona Lica Leão, dona, até hoje, do melhor resultado brasileiro em um Campeonato Mundial, com o impressionante 4º lugar conquistado em 1996. 

A paulista Eliana Rocha Leão, a Lica, hoje mora em Jaguariúna – SP e trabalha, principalmente, iniciando potros das modalidades western Três Tambores e Rédeas. Ela conversou com a gente para contar um pouco mais sobre sua trajetória com os esportes equestres, seus maiores aprendizados e objetivos dentro do mundo do cavalo. Confira as palavras inspiradoras da amazona:  

Como foi sua trajetória nos esportes equestres? Por que saiu do Enduro para ficar nas modalidades Western?

Eu nasci e me criei em São Paulo, mas sempre gostei muito de cavalo e eram os animais da hípica que estavam ao meu alcance. Fiz hipismo clássico, Salto, fui pro rural e aí conheci o Enduro, no qual fiquei por bastante tempo. Depois comecei a virar o leme para a parte western da minha vida, que era o que eu sempre gostei. Voltei pra Rédeas e pro Laço, e agora estou nos Três Tambores também.

Eu acabei indo para o Enduro porque eu gosto de desafio. E eu acho que 160km é um desafio absurdo para uma pessoa fazer. Na minha cabeça eu ia fazer uma vez só, mas foi dando certo, e quando a gente está ganhando a gente gosta né? Então eu fui ficando, ficando... e acabei ficando uns 12 ou 15 anos, não sei. Mas eu sou treinadora de cavalos e faço isso desde os 16, 17 anos. Eu vivo do treinamento. E o Enduro não te permite muito isso. Então voltei para Rédeas, que sempre foi minha paixão.

Você teve envolvimento com os cavalos durante toda a vida. O que eles significam para você? Teve um cavalo que foi o mais marcante?

O cavalo é meu trabalho, ele é meu hobby, ele é meu negócio, ele é a minha válvula de escape. É uma coisa que consegue ser tudo pra você. Desde a diversão, até a parte financeira, o trabalho, o respeito, o aprendizado do dia-a-dia. Porque eles te ensinam coisas todos os dias, você aprende com eles e com cada um deles.

Você aprende respeito, conhece e aprende a respeitar os limites de cada cavalo. Ou pelo menos achar que sabe esse limite. Porque esse desafio todo que é legal. Você nunca sabe tudo. Todo dia tem alguma coisa para aprender e é um desafio diário. Você acha que pegou o negócio, aí no outro dia o cavalo já te mostra que você pode 'abaixar a bola', porque você pegou, mas não foi tudo. Essa parte que é legal, é um desafio diário. Não existe uma hora que você vai dizer "agora vou parar porque já aprendi tudo". 

É muito difícil escolher um cavalo porque foram muitas modalidades, mas tem. No Enduro, inclusive. Foi a Itabara (foto da capa), que foi a égua que me deu a maior parte dos meus títulos. Ela era absurdamente louca por competição, igual eu. Então foi uma coisa que combinou demais. Ela me marcou.

Nós sempre falamos de vitórias inesquecíveis. Mas teve alguma derrota que foi marcante e que deixou um aprendizado?  

Sim, também no Enduro, que foi uma coisa muito intensa na minha vida. Foi uma prova de 160km que eu estava em segundo e, faltando o último anel para acabar, eu acho que deveria ter uns 15km faltando, mais ou menos, eu consegui passar o primeiro colocado e chegar na frente com uns 10 minutos de vantagem. Mas no vet check meu cavalo mancou e eu fui desqualificada. Esse dia foi uma derrota marcante. 

Eu acho que a gente aprende muito mais nas derrotas do que nas vitórias. Porque, quando você ganha, você não vai procurar saber porque ganhou nem o que precisa melhorar. Você ganhou, você foi o melhor, então não tem muita coisa para você aprender dali. Mas quando você perde, se você não for atrás do que aconteceu para que você tivesse aquela derrota, onde foi o problema e como solucionar, então você vai ser sempre um derrotado. A derrota sempre ensina muito mais que a vitória. 

 

 Qual cavaleiro você citaria como uma grande referência para você?

Gilson Diniz. Ele é treinador da modalidade de Rédeas e mora em Itapira - SP. Foi um cara me ensinou muito na época que eu comecei a treinar cavalo de Rédeas. Ele nunca mediu esforços para me ensinar e acabou de ganhar o ‘Potro do Futuro’ da modalidade, então também está em uma boa fase agora. Desde que eu comecei a Rédeas ele foi um cara que me deu muita força. 

Depois de todos esses anos no meio do cavalo, qual conselho ou uma dica você daria? Algo que você aprendeu com os cavalos, seja para os esportes equestres ou para levar para vida.

Eu acho que eles ensinam a gente para as duas coisas, ao mesmo tempo. Se a pessoa tiver a cabeça aberta, ela consegue perceber que, ao mesmo tempo que você está ensinando e aprendendo com o cavalo sobre o esporte equestre, você está ensinando e aprendendo para a vida. As coisas andam na mesma linha, eu acho.

Então, em primeiro lugar, eu acho que respeitar limites. Saber respeitar os limites é o principal conselho, em qualquer modalidade, em qualquer fase que você esteja como treinador, como amador, como iniciante ou como competidor. Se você conseguir aprender a ver e respeitar os limites, eu acho que o resultado é sempre positivo. Mesmo que o resultado não seja a vitória. É preciso saber aceitar um resultado positivo como vitória, mesmo não sendo uma vitória. E na vida é a mesma coisa. Se você consegue ler um cavalo, não é tão difícil viver. 

 

Gostou da nossa conversa com Lica Leão? Conheça um pouco mais sobre a trajetória de outros grandes cavaleiros com a série Simbiose, disponível no canal do Youtube da Chevaux