08.05.2018

5 perguntas para Filipe Masetti

Saiba mais sobre a aventura de 16mil km e os próximos planos do “cavaleiro das Américas”

Calculando 30km por dia, ele imaginava ir de Calgary, no Canadá, a Barretos, no interior de São Paulo, em mais ou menos 2 anos. No caminho, ursos, machucados, a travessia de um rio que quase levou um de seus cavalos, gangues e momentos de medo fizeram a aventura durar um pouquinho mais, 2 anos e 3 meses, começando no dia 8 de Julho de 2012. Aqueles 16 mil km percorridos seriam a primeira aventura de uma jornada ainda maior para Filipe Masetti, conhecido como “o cavaleiro das Américas”.

O jornalista paulista de Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo, agora está com 31 anos, tem um livro a venda e outro no forno, e planeja a terceira viagem com a qual vai fechar as Américas. Saiba mais sobre essa trajetória:

Essa  viagem era um sonho seu desde criança, inspirado no suíço Aimé Tschiffely, que  viajou da Argentina até os Estados Unidos. O que essa história tinha que despertou todo esse seu interesse por viagens de longa distância a cavalo?  

Foram duas coisas. A primeira: viajar. Desde pequeno eu amei viajar e me imaginava passando pela América Central, Andes, México, vendo todos aqueles lugares e culturas. Isso de viajar ao desconhecido me cativava.

Além disso, Aimé Tschiffely tinha dois cavalos crioulos, com os quais fez toda a sua jornada. Como eu era uma criança que amava cavalos, sempre fiquei imaginando como seria viver uma aventura dessa com os mesmos animais, e a conexão que eu teria com eles depois de uma viagem tão longa. E essa conexão realmente foi especial? Sim. Começou devagar, como todo relacionamento. E no momento que eles perceberam que eu não iria fazer nenhum mal a eles, me aceitaram como o líder da manada. Eles são meus filhos! Uma ligação muito forte. No final da viagem eu já sabia com o que eles iam se assustar antes mesmo deles fazerem qualquer movimento. Era como se eles fossem uma extensão do meu corpo.  

Como foi a organização para a viagem. Como definiu sua rota? O que estudou antes de partir?

Eu levei dois anos definindo tudo para essa viagem. A primeira parte da preparação foi para aprender a viajar a cavalo. Eu laçava em rodeio, praticava esporte com meus cavalos, mas é outra coisa sair para uma viagem em que você vai cavalgar de 8h a 10h por dia, 5 dias na semana, onde a água e a comida podem acabar. Eu li muitos livros, entrei em contato com uma associação que chama “The long Riders` Guild", que  é uma associação de cavaleiros de longa distância, e eles me ensinaram muito e me colocaram em contato com cavaleiros do mundo inteiro. Conversando com essas pessoas eu aprendi muita coisa, desde equipamento até coisas como o uso de óleo de cozinha com uma seringa na goela do cavalo e dar pouca comida para ajudar a prevenir uma cólica.

Depois fui buscar patrocínio. Eu não tinha nada pra fazer essa viagem, que é muito cara. Então foram dois anos batendo na porta das pessoas, e elas rindo da minha cara, falando que isso não era possível e que eu ia morrer. Até que uma produtora dos Estados Unidos comprou o projeto pra eu filmar um seriado de televisão pra eles. Com esse dinheiro eu conseguia bancar os custos do dia-a-dia da viagem, ganhei dois quarto de milha, sela, e estava pronto para sair.

 

No caminho, Filipe ganhou um cavalo Mustang dos índios americanos para seguir sua aventura com três animais

 

Quais devem ser as características de um cavalo para essa aventura?

A primeira coisa que vale a pena dizer é que qualquer cavalo faz essa viagem, desde que você saiba tratar dele. O que é importante: 1 - um cavalo novo, mas não tão jovem. Eu gosto de um cavalo de 5 anos, que os ossos já cresceram o suficiente, ele não vai sofrer e ainda é novo, normalmente ainda não tem nenhuma lesão grave do passado que possa ser um problema. 2 - Um cavalo que nunca fez esporte ou uma atividade que exigisse muito dele, porque ele pode ter uma lesão que você nem sabe. 3 - Um cavalo que não é muito pesado, já que ele come muito e é mais difícil de cavalgar porque se desgasta mais; e 4 - fazer um bom treinamento antes de você sair. Eu conheci os cavalos antes da viagem e comecei a cavalgar com eles. No primeiro dia fizemos 5km, no segundo dia foram 7km, no terceiro dia fomos para 10km. Até, devagar, chegar na meta de 30km por dia. É um treino gradual, como o de um atleta. É necessário preparar e treinar o cavalo no que ele vai fazer. Tem que acostumar os cavalos a andar juntos, a serem puxados em fila, no início o da frente pode dar coice, o de trás quer morder, um caminha mais rápido que o outro… tudo isso tem que ser trabalhado com paciência.

É importante não forçar um cavalo que não aguenta essa viagem por idade ou lesão, mas pela questão da raça, qualquer cavalo pode fazer uma jornada dessa.

 

Qual foi o maior aprendizado com a viagem? Ela foi mais fácil ou mais difícil do que você esperava?

Tive dois grandes aprendizados. O primeiro é o segredo do universo: se você está disposto a trabalhar, batalhar e dar o seu tudo, nada é impossível. Com foco, força e fé, você faz o que você quiser. O segundo é uma lição muito bonita: que tem muita gente boa no mundo. A cada 30 km desses 16 mil km eu precisava de ajuda para dar um lugar para os cavalos dormirem, comerem e beberem água e eu fui acolhido por muitas famílias, mesmo em lugares em guerra ou muito perigosos, onde diziam que iriam me matar.

 A viagem com certeza foi muito mais difícil do que eu esperava. Ter um cavalo numa baia, no seu rancho, já é difícil. Imagina estar sozinho, sem carro de apoio, no meio de deserto, em cima de montanhas, nadando rios… é muito difícil. Um cavalo machuca, você está sozinho, então você tem que ser veterinário, tem que saber achar veia, dar injeção, ter cuidado para prevenir cólica, prestar primeiros socorros; Encontramos um urso pardo em Montana - EUA que quase nos matou, vi gente morta por tiros na América Central. Tiveram momentos em que eu achava que ia morrer ou que um cavalo ia morrer. Tiveram momentos de muito sofrimento, foi a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida.

 

 

Chegada na arena da Festa do Peão de Barretos em 2014

Você partiu para a sua segunda aventura em abril de 2016, saindo do Hospital de Câncer de Barretos e cavalgando até o Ushuaia, na Argentina. Foram 7.500km, passando por quatro países, em 1 ano e 3 meses. E agora? Quais são os planos?

Agora eu estou escrevendo meu segundo livro, que vai falar dessa viagem até o Ushuaia, o ponto mais ao sul das Américas, e já estou planejando a terceira jornada. Ela vai começar em maio de 2019, saindo do Alasca, e vou cavalgar 4 mil km até Calgary, de onde saí na primeira viagem. Essa aventura vai levar um pouco mais de um ano, porque terei que parar durante o inverno, que é muito rigoroso naquela região. Mas quando concluirmos essa terceira etapa, terei fechado as Américas. Serão 3 viagens, 3 livros e 3 feridos de televisão.

 

Para saber mais sobre essa história, veja os vídeos dessa grande aventura no site Out Wild e confira o primeiro livro de Filipe Masetti, "Cavaleiro das Américas".

 

Fotos: André Monteiro