03.08.2016

5 perguntas para Cida Gazzola

Um dos grandes orgulhos do Enduro Brasileiro conta um pouco da sua história

Cida Gazzola é endurista desde 1988. De lá pra cá, acumulou não só muitas histórias com o Enduro, mas também muitas conquistas. Foi campeã sul-americana, ganhou a primeira prova de Velocidade Livre no Brasil e o primeiro Campeonato Brasileiro de longa distância.  Como técnica, trouxe a primeira medalha do Brasil em um Panamericano e um ouro para a equipe Young brasileira. 

Na entrevista, Cida narra seus melhores momentos como endurista e como técnica e faz uma reflexão sobre o atual momento do Enduro no Brasil. Ela faz críticas relacionadas ao desenvolvimento do esporte no país, como a falta de união das equipes brasileiras e dificuldades políticas, mas acredita que o cenário está mudando e espera que o Enduro brasileiro seja, cada vez mais, motivo de orgulho. 

No Campeonato Brasileiro deste ano, Cida estará como técnica de sua filha, Cecília Gazzola, que vai competir na categoria 120 km, montando Imosec Endurance.

 

Como e quando você começou no Enduro?

 A minha vida toda convivi com cavalos. Aos 18 anos fui para Belo Horizonte e, para não ficar longe dos cavalos, fui montar na Hípica da Pampulha e pela primeira vez andei em cavalos de trote. Após 8 anos retornei a morar em Varginha e comecei a fazer Hipismo Rural. Fiquei nesta modalidade até o final de 1986, quando fiz minha última prova já com a Cecília na barriga sem saber. Quando tive a Cecília fiquei com duas filhas pequenas e com medo de retornar para o Hipismo Rural. Foi quando ouvi falar de Enduro e fui fazer minha primeira prova com os MALHEIROS&MALHEIROS, ainda um enduro de planilha, que era um pouco chato porque tinha que ficar olhando para um papel ao invés de olhar para a paisagem e de sentir o cavalo. Então em 1988 eu já estava fazendo enduro e em 1991 já estava fazendo o enduro de velocidade controlada do primeiro Campeonato Brasileiro de Enduro.


A senhora ganhou o primeiro Campeonato Brasileiro de longa distância e participou da primeira prova de 160 km do Brasil, em 1995. O que mudou no esporte daquela época até hoje?
 

O primeiro Campeonato Brasileiro de longa distância foi em um percurso de 123,10 km, realizado em uma única etapa, em Brasília. Participaram 17 conjuntos, somente 7 terminaram a prova e eu fiquei em primeiro lugar. Eu fiz a prova a 14,59 km/h, fiz ao passo todo o parque da Granja do Torto e mesmo assim fiquei há quase 17 minutos na frente do 2o colocado. Foi considerada uma velocidade muito alta por ser realizada em Brasília e na época costumávamos andar a 12 km/h e no máximo a 14 km/h.

A primeira prova de 160 km no Brasil aconteceu em Avaré. Eu larguei às 5 horas da manhã, montando Flisa Fetiche, terminei depois da meia noite, fiquei em 4o. lugar e terminaram 5 conjuntos. Não tem nem como falar de mudanças de lá para cá. Quando eu fiz este 160 km, só acreditava ser possível porque em 1994 eu tinha visto isso acontecer na Holanda e vi o cavalo ganhador ao galope no outro dia, entrando no estádio para receber o prêmio. Foi a coisa mais emocionante que já vi até hoje. O nosso treinamento, alimentação dos cavalos tudo era errado e não tínhamos noção do que tinha que ser feito para fazer 160 km com um cavalo. Éramos perfeitas cobaias e malucos.

 

Quando resolveu parar de competir em provas de longas distâncias? Como se deu esse processo?

 Na verdade, eu não resolvi parar. O processo começou em 2004, quando sofri um acidente de carro e quebrei a bacia. Mesmo assim continuei a fazer prova, mas já não conseguia montar no cavalo do chão, tinha que usar um banco ou um balde. Até que um dia, ao subir no balde, ele se partiu.

Então, a partir daí, passei a fazer provas menores, a idade foi chegando e o físico já não aguentava mais. No ano passado, fiz a última para me despedir na Capoava 60 km. No primeiro anel, quando cheguei cai no chão porque não tive perna para ficar de pé, mas fui até o final, uma ótima despedida. Hoje eu treino os cavalos, tenho uma escada para montar e desmontar e vamos ver até quando vai dar.

A minha filha, Cecília, se tornou endurista e foi quem me reaproximou do Enduro. É muito gratificante vê-la nas trilhas porque é uma grande competidora, acho que compete melhor que eu competia, tem muita garra e determinação. Mas o espírito de treinadora fala mais alto que o de mãe. Eu sempre tenho que segurá-la um pouco e sou bem exigente. Quero que quando ela ganhe a prova o cavalo esteja sobrando. Então é bem difícil para ela, que gosta muito de ganhar, ter que segurar quando eu mando.

A senhora participou do seu primeiro Mundial em 1994, e depois em 1996 conquistou o 4º lugar por equipes. Como foi a experiência nestes mundiais, representando o país no esporte que você ama?

Em 1994 o Brasil participou do Mundial na Holanda, na cidade de Haia, e eu fui um dos membros da equipe. Eu nunca tinha feito mais de 100 km. Montei o Cavalo Truck, de propriedade do Marcelo Strauss. Os cavalos brasileiros quando chegaram à Holanda tiveram embaraço para sair do Aeroporto e, lá mesmo, o Truck comeu ração e teve uma acidose e ficou com a garupa e todos os membros endurecidos e os cascos com pulsações. Com muita dificuldade e muitos litros de soro ele foi liberado a entrar na prova. Foi muito emocionante passar o Km 100 pela primeira vez e fomos o melhor conjunto Brasileiro da prova. O Truck foi campeão Brasileiro de velocidade livre de longa distância no ano seguinte, em 1995, e eu fui a Vice-Campeã montando Flisa Fetiche.

Em 1996, o Brasil participou do Mundial no Kansas. A Flisa Fetiche foi o único animal a estar apta a ir, os demais membros da equipe alugaram cavalos. Embarcamos sozinhos para os Estados Unidos, aterrizamos em Miami e fomos por terra até o Kansas. Tivemos vários problemas e dificuldades até chegarmos ao local da prova. Mas este Campeonato Mundial é histórico porque, até hoje, marcou o melhor resultado de um brasileiro: o 4o. lugar da Lica Leão.  

Depois, vieram outras experiências fora do Brasil. Em 1998 fui aos Emirados Árabes em Dubai, como groom do Henrique Garcia montando Bodolay Fetiche, animal de minha criação. Bodolay teve o mesmo problema que o Truck, uma acidose, mas como já tínhamos experiência acudimos em tempo. Ele terminou a prova e foi elogiado no hospital (todos os cavalos eram obrigados a passar pelo hospital) como um dos cavalos mais bem hidratos da prova. Em 2005 fui como Técnica das equipes Brasileiras de Young e Adulto no Pan Americano em Pinamar na Argentina. Foi muito gratificante conseguirmos a Primeira Medalha de Ouro do Brasil com os Young e a Primeira medalha de Bronze dos Adultos.

 

 O que via de diferente nos outros países, que o Brasil ainda não tinha? Tem alguma coisa que ainda falta melhorar para o Enduro brasileiro ficar no nível de outros países? 

As primeiras diferenças que vi nos outros países foi a velocidade e a união das equipes. As equipes brasileiras que acompanhei eram muito desunidas, os cavalos eram imaturos. A meu ver, na época precisávamos de tempo para formar cavalos mais sólidos e teríamos que ter uma equipe fixa que se renovaria com as necessidades ao invés de brigar até o último momento por uma vaga e assim disputando entre si até o final, ao invés de estar treinando juntos.

Acho que hoje em dia já temos cavalos mais sólidos, mas ainda falta a equipe ser convocada com antecedência para que possam ser companheiros, treinarem juntos e não continuarem a ser competidores entre si, lá fora. Faz muito tempo que não acompanho de perto os Mundiais, só vejo os resultados, mas pelo que estou vendo aqui em nossas provas ainda falta um pouco de consistência na formação dos cavalos. Vi muitos cavalos serem sugados pelo resultado de uma única prova. O apressado come cru e acho que isto é que está atrapalhando a melhora do nosso enduro. Vejo pessoas cometendo erros que cometi nos anos 90 e acham que estão certas. Então, a meu ver, o que falta para melhorar nosso enduro é a formação mais sólida dos cavalos. Um cavalo não pode correr riscos de se machucar para depois curar, ele tem que ser formado com a menor lesão possível. As equipes têm que ser convocadas com maior antecedência para se prepararem e treinarem juntas, porque os cavalos precisam andar em grupos de no mínimo 2 para se ajudarem.

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Cida Gazzola ajudou, e continua ajudando, a escrever a história do Enduro brasileiro. E todos os apaixonados podem contribuir. Faltam poucos dias para o Campeonato Brasileiro de Enduro e Paraenduro. É hora de reunir todos os enduristas e mostrar o orgulho de ser #enduristabrasileiro. Ainda dá tempo de fazer a sua inscrição. Participe